Revista Orpheu



Orpheu, Revista Trimestral de Literatura

Foi um veículo de comunicação publicado em Lisboa em apenas dois números, correspondentes aos primeiros dois trimestres de 1915, sendo o terceiro número cancelado devido a dificuldades de financiamento. Apesar disso, a revista exerceu uma notável e duradoura influência: o seu vanguardismo inspirou movimentos literários subsequentes de renovação da literatura portuguesa. Mau grado o impacto negativo que Orpheu causou na crítica do seu tempo, a relevância desta revista literária advém de ter, efectivamente, introduzido em Portugal o movimento modernista, associando nesse projecto importantes nomes das letras e das artes, como Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Almada-Negreiros ou Santa-Rita Pintor, que ficaram conhecidos como geração d'Orpheu.


Orpheu, um projecto luso-brasileiro

Em finais de Março de 1915 surgiu o primeiro número da revista Orpheu, propriedade da firma "Orpheu, Lda.", destinada a Portugal e Brasil, com 83 páginas impressas em excelente papel e tipo agradável, tendo como directores Luís de Montalvor (para Portugal) e Ronald de Carvalho (para o Brasil), e como editor o jovem António Ferro. Entre outros, contava com a colaboração de Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro e José de Almada Negreiros. Na "Introdução", Luiz de Montalvôr apresentava a orientação estética da revista como "um exilio de temperamentos de arte" baseado num "principio aristocratico" de "harmonia estética", com "desejos de bom gosto e refinados propositos em arte".


A recepção de Orpheu

A recepção desta revista trimestral de literatura não foi pacífica, bem pelo contrário, desencadeando uma controvérsia que se propagou pela imprensa portuguesa da época, com notícias e críticas de primeira página. Os comentários jocosos ridicularizavam os jovens escritores, apontados como doidos varridos, sobretudo devido aos poemas "16", de Mário de Sá-Carneiro, e "Ode Triunfal", de Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa. A 4 de Abril de 1915, o próprio Pessoa escreveu a Armando Côrtes-Rodrigues,descrevendo o sucesso da revista e o enorme escândalo que provocou:

"Ontei deitei no correio um Orpheu para si. Foi só um porque podemos dispor de muito poucos. Deve esgotar-se rapidamente a edição. Foi um triunfo absoluto, especialmente com o reclame que A Capital nos fez com uma tareia na 1.ª página, um arigo de duas colunas. Não lhe mando o jornal porque lhe escrevo à pressa, da Brasileira do Chiado. Para a mala seguinte contarei tudo detalhadamente. Há imenso que contar. Agora tenho tido muito que fazer. Da livraria depositária é que seguirão os exemplares para os assinantes e livrarias daí. Naturalmente não há números para irem para todos os nomes que v. indica. Vão para alguns. Naturalmente temos que fazer segunda edição. Somos o assunto do dia em Lisboa; sem exagero lho digo. O escândalo é enorme. Somos apontados na rua, e toda a gente -- mesmo extra literária -- fala no Orpheu.
Há grandes projectos. Tudo na mala seguinte.
O escândalo maior tem sido causado pelo 16 do Sá-Carneiro e a Ode Triunfal. Até o André Brun nos dedicou um número das Migalhas."

Fernando Pessoa, Correspondência 1905-1922, Lisboa, Assírio & Alvim, 1999, p. 161.



Duas semanas depois, noutra carta para Armando Côrtes-Rodrigues, Pessoa confirma o êxito da revista:


"Lembrou-me hoje de repente, e felizmente lembrou-me a tempo, visto que são 19. E não tenho tempo para tratar de reunir alguns, pelo menos, dos artigos que se têm escrito sobre o Orpheu; tenho pena de que o não possa fazer, porque v. havia de rir imenso com eles. Para a outra mala -- definitivamente lho prometo -- não esquecerei. Tantos e tais foram os artigos, que em três semanas o Orpheu se esgotou -- totalmente, completamente se esgotou."

Fernando Pessoa, Correspondência 1905-1922, Lisboa, Assírio & Alvim, 1999, p. 162.



Aproveitando o escândalo que se gerara com o lançamento da revista[3], Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, que figuram como directores do segundo número, acentuam o seu carácter provocador e contrafactual, revelando nomes como Santa-Rita Pintor, artista plástico "futurista" e Ângelo de Lima, poeta marginal internado no manicómio de Rilhafoles desde 1900.

Fernando Pessoa escreveu ao poeta Camilo Pessanha, então funcionário em Macau, pedindo autorização para publicar poemas dele. Nesta carta, Pessoa assumia já a direcção de Orpheu, descrevendo a revista como se segue:


"Sou um dos directores da revista trimestral de literatura Orpheu. Não sei se V. Ex.ª a conhece; é provável que não a conheça. Terá talvez lido, casualmente, alguma das referências desagradáveis que a imprensa portuguesa nos tem feito. Se assim é, é possível que essa notícia o tenha impressionado mal a nosso respeito, se bem que eu faça a V. Ex.ª a justiça de acreditar que pouco deve orientar-se, salvo em sentido contrário, pela opinião dos meros jornalistas. Resta explicar o que é Orpheu. É uma revista, da qual saíram já dois números; é a única revista literária a valer que tem aparecido em Portugal, desde a Revista de Portugal, que foi dirigida por Eça de Queirós. A nossa revista acolhe tudo quanto representa a arte avançada; assim é que temos publicado poemas e prosas que vão do ultra-simbolismo ao futurismo. Falar do nível que ela tem mantido será talvez inábil, e possivelmente desgracioso. Mas o facto é que ela tem sabido irritar e enfurecer, o que, como V. Ex.ª muito bem sabe, a mera banalidade nunca consegue que aconteça. Os dois números não só se têm vendido, como se esgotaram, o primeiro deles no espaço inacreditável de três semanas. Isto alguma coisa prova -- atentas as condições artisticamente negativas do nosso meio -- a favor do interesse que conseguimos despertar. E serve ao mesmo tempo de explicação para o facto de não remeter a V. Ex.ª os dois números dessa revista. Caso seja possível arranjá-los, enviá-los-emos sem demora."

Fernando Pessoa, Correspondência 1905-1922, Lisboa, Assírio & Alvim, 1999, pp. 184-185.


Vida e morte de Orpheu

Em Julho de 1915, Alfredo Guisado e António Ferro anunciaram publicamente o seu afastamento da revista por divergências políticas com Fernando Pessoa, aliás, Álvaro de Campos, e Mário de Sá-Carneiro partiu precipitadamente para Paris. Em 13 de Setembro desse ano, Sá-Carneiro escreveu a Fernando Pessoa, informando que o seu pai não podia continuar o mecenato involuntário da revista, esfumando-se assim o projectado terceiro número de Orpheu.



No ano seguinte ocorreria o trágico suicídio de Mário de Sá-Carneiro, em Paris, e Santa-Rita Pintor, que colaborou com quatro hors-texte no segundo número da revista, morreria também, assim como o pintor Amadeu de Souza-Cardoso, de quem Fernando Pessoa chegou a pensar inserir trabalhos no terceiro número de Orpheu.


A "publicação eventual" Portugal Futurista, dirigida por Carlos Filipe Porfírio, continuou a tradição vanguardista e provocadora de Orpheu, com trabalhos dos seus colaboradores, designadamente Raul Leal, Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, Álvaro de Campos, Almada Negreiros e Santa-Rita Pintor, bem como de Amadeu de Souza-Cardoso. Para alguns críticos, o único número de Portugal Futurista, publicado em Novembro de 1917 e apreendido de seguida, foi o herdeiro de Orpheu e o seu real terceiro número.



Orpheu marcou a história da literatura portuguesa do século XX, sendo considerada o marco inicial do Modernismo em Portugal, e os seus protagonistas ficaram conhecidos como Geração d'Orpheu". Apenas doze anos depois, a importância desta publicação começaria a ser reconhecida pela "segunda geração modernista" nas páginas da revista Presença, publicada em Coimbra de 1927 a 1940, a qual contou também com grandes nomes da literatura portuguesa, como José Régio, Miguel Torga e Vitorino Nemésio.


Primeiro número, Janeiro–Fevereiro–Março de 1915





Contribuíram para o primeiro número de Orpheu Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho, Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, Alfredo Pedro Guisado, Almada Negreiros, Armando Côrtes-Rodrigues e José Pacheko, que desenhou a capa e foi responsável pela direcção gráfica. O nome do jovem António Ferro consta também neste primeiro número da revista como editor. No final da introdução a esta primeira edição, assinada pelo seu director Luís de Montalvor, o grupo manifesta o propósito de ir ao encontro de alguns "desejos de bom gosto e refinados propósitos em arte que isoladamente vivem para aí", convictos de que a revista, pelo seu carácter inovador, revela um sinal de vida no ambiente literário português, manifestando esperança na adesão do "público leitor de selecção" a este projecto literário. Se, nesses leitores de "selecção", o primeiro número da revista encontrou "contentamento e carinho", no público em geral causou escândalo e polémica. A revista abalou decididamente o meio literário português pela ousadia e vanguardismo de alguns dos seus textos. Foi, sem dúvida, um sinal de vida que rompeu com as tradições literárias e significou o advento do Modernismo em Portugal.




Segundo número, Abril–Maio–Junho de 1915





O segundo número da revista, sob a direcção de Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, inclui textos de Ângelo de Lima, Mário de Sá-Carneiro, Raul Leal, Violante de Cysneiros, Luís de Montalvor, Fernando Pessoa e Álvaro de Campos.




Esta edição contou também com a colaboração plástica do "futurista Santa-Rita Pintor", de quem são reproduzidos 4 trabalhos:


1. Estojo scientífico de uma Cabeça + aparelho ocular + sobreposição dynamica visual + reflexos de ambiente * luz, (sensibilidade mecanica), 
Paris ano 1914.


2. Compenetração estática interior de uma cabeça = complementarismo congénito absoluto, (sensibilidade lithographica),
Paris anno 1913.


3. Syntese geometral de uma cabeça * infinito plastico de ambiente * transcendentalismo phisico, (sensibilidade radiographica),
Paris anno 1913

4. Decomposição dynamica de uma mesa + estylo do movimento, (interseccionismo plástico),

Paris anno 1913.


O atribulado destino de Orpheu 3

O número 2 da revista trimestral de literatura anunciava que: "O 3º número de ORPHEU será publicado em Outubro, com atraso dum mês, portanto — para que a sua acção não seja prejudicada pela época morta". A partida precipitada de Mário de Sá-Carneiro para Paris, em Julho de 1915, não interrompeu o projecto da revista. Ele e Fernando Pessoa continuaram a trabalhar para a publicação, chegando a ter planeado um sumário para o terceiro número, de acordo com uma carta de Sá-Carneiro para Pessoa, de 31 de Agosto de 1915. Contudo, a recusa do pai de Sá-Carneiro em continuar o seu mecenato involuntário da revista, obrigou-o a desistir da publicação:


"Custa-me muito a escrever-lhe esta carta dolorosa — dolorosa para mim e para você. Mas por mim já estou conformado. A dor é pois neste momento sobretudo pela grande tristeza que lhe vou causar. Em duas palavras: temos desgraçadamente de desistir do nosso Orfeu. Todas as razões lhe serão dadas, melhor pela carta do meu Pai que junto incluo e que agradeço não deixe de ler. Claro que é devida a um momento de exaltação. No entretanto, cheia de razões pela conta exorbitante que eu obrigo o meu Pai a pagar — o meu Pai foi para África por não ter dinheiro e que lá não ganha sequer para as despesas normais, quase. Compreende que seria abusar demais, seria exceder a medida mais generosa depois duma conta tipográfica de 560 000 réis, depois da minha fugida para aqui — voltar daqui a três ou quatro meses a pedir-lhe para saldar uma conta de 30 ou 40 000 réis — na melhor das hipóteses — do n.º 3 do Orfeu — feito ainda sob a minha responsabilidade (mesmo que eu estivesse certo de tirar toda a despesa) seria na verdade mostrar demais a minha insubordinação."

Mário de Sá-Carneiro, Cartas de Mário de Sá-Carneiro a Fernando Pessoa Lisboa, Assírio & Alvim, 2001, p. 209.


Apesar do suicídio de Sá-Carneiro em Paris, no dia 26 de Abril de 1916, Fernando Pessoa não desistiu do terceiro número de Orpheu. A 4 de Setembro desse ano, escreveu a Côrtes-Rodrigues que a revista deveria sair ainda nesse mês:



"Vai sair Orpheu 3. É aí que, no fim do número, publico dois poemas ingleses meus, muito indecentes, e, portanto, impublicáveis em Inglaterra. Outra colaboração do número: Versos do Camilo Pessanha (a propósito não cite isto a ninguém), versos inéditos do Sá-Carneiro, A Cena do Ódio do Almada-Negreiros (que está actualmente homem de génio em absoluto, uma das grandes sensibilidades da literatura moderna), prosa do Albino de Meneses (não sei se v. conhece) e, talvez, do Carlos Parreira, e uma colaboração variada do meu velho e infeliz amigo Álvaro de Campos.
Orpheu 3 trará, também quatro hors-texte do mais célebre pintor avançado português — Amadeu de Sousa Cardoso.
A revista deve sair por fins do mês presente. Para a mala que vem já lhe poderei dar notícias mais detalhadas."

Fernando Pessoa, Correspondência 1905-1922, Lisboa, Assírio & Alvim, 1999, pp. 220-221.


Tivesse ou não Côrtes-Rodrigues revelado os planos de Fernando Pessoa, eles seriam frustrados por Luís de Montalvôr, em Outubro de 1916, ao publicar 16 poemas de Camilo Pessanha na revista Centauro (incluindo os que Pessoa tinha em mente para Orpheu 3), para a qual, aliás, Fernando Pessoa também contribuiu com o poema "Passos da Cruz". Mais tarde, em 11 de Julho do ano seguinte, Fernando Pessoa escreveu a José Pacheko, arquitecto e responsável gráfico de Orpheu, pedindo ao amigo:


"Temos de nos encontrar para discutirmos as páginas de resguardo e o prospecto a distribuir, assim como a forma de reclame, definitivamente: são cousas, todas ellas, que temos de combinar e tratar conjunctamente.
O Serra (encarregado da tipografia do Falcão) pediu que lhe dessem mais umas folhas de papel para Orpheu, para tirar mais uns 6 ou 7 exemplares a mais."

Fernando Pessoa, Correspondência 1905-1922, Lisboa, Assírio & Alvim, 1999, p. 248.


A publicação do sempre adiado Orpheu 3 seria anunciada, mais uma vez, numa nota do Ultimatum de Álvaro de Campos, edição em separata da revista Portugal Futurista, publicada em 1917: "'Saudação a Walt Whitman' (in Orpheu 3 a aparecer em Outubro 1917)". A verdade, porém, é que a capa não foi impressa e apenas chegaram até nós as provas de página, embora muito diferentes do sumário inicialmente idealizada por Pessoa e Sá-Carneiro, em Agosto de 1915. Ficaram também excluídos os dois poemas ingleses, "muito indecentes, e, portanto, impublicáveis em Inglaterra", que Pessoa pretendia inserir no "Orpheu 3" em 1916. Estes poemas foram, aliás, publicados separadamente em Lisboa, pelo escritor, em 1918: Antinous e 35 Sonnets.

Mais tarde, a 31 de Janeiro de 1928, Fernando Pessoa revelava a José Régio, um dos editores da revista coimbrã Presença que pretendia publicar um poema inédito de Mário de Sá-Carneiro, que pouco havia já de inédito do seu malogrado amigo:



"Pouco já há. Mando-lhe um, que, por ser a primeira das 'Sete Canções de Declínio', que estiveram impressas no Orpheu 3 que não saiu, denominei, por minha conta, 'Canção de Declínio'.
Creio que esta canção é inédita. Na Contemporânea utilizaram essa folha impressa do Orpheu-aborto para dela extraírem, de acordo comigo, várias composições do Sá-Carneiro."

Fernando Pessoa, Correspondência 1923-1935, Lisboa, Assírio & Alvim, 1999, p. 133.

A 6 de Junho de 1931, numa carta para João Gaspar Simões, outro editor da revista Presença, Fernando Pessoa confirma a informação prestada três anos antes a José Régio, acerca das "Sete Canções do Declínio": "Desconta-se, claro está, a publicação no Orpheu 3 que nunca saiu, mas de que foram impressas algumas folhas".

Em Novembro de 1935 foi publicado o terceiro número da revista Sudoeste, dirigida por Almada Negreiros, edição evocativa do vingésimo aniversário de Orpheu que incluía contribuições de quase todos os colaboradores dos dois números publicados da revista trimestral de literatura. A edição abre com o pequeno texto "Nós os de 'Orpheu'", de Fernando Pessoa, que termina com a frase "Orpheu Acabou. Orpheu continua". Este número da revista Sudoeste anuncia também "Brevemente 'ORPHEU 3'". Contudo, Fernando Pessoa faleceu em 30 de Novembro de 1935, pelo que o Orpheu 3 ficou, mais uma vez, adiado sine dia.

O terceiro número da revista Orpheu, compilado por Arnaldo Saraiva, apenas seria publicado em 1984.

"ORPHEU" - Revista Trimestral de Literatura
N.º 3, a publicar em Outubro de 1917.
PROVAS DE PÁGINA:
Mario de Sá-Carneiro - Poemas de Paris
Albino de Menezes - Apoz o Rapto (composição)
Fernando Pessoa - Gladio e Além-Deus (poemas)
Augusto Ferreira Gomes - Por Esse Crepusculo a Morte de um Fauno...
José de Almada-Negreiros (poeta sensacionista e narciso do Egypto) - A Scena do Odio
D. Thomaz de Almeida - Olhos
C. Pacheco - Para Alem Doutro Oceano (notas)
Castello de Moraes - Névoa (composição)

Dada a impossibilidade de Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro publicarrm o terceiro número de Orpheu, Santa-Rita Pintor, pretendia dar continuidade à publicação, mas os directores da revista não o levaram a sério. Em carta para o Pintor, Pessoa escreveu em 21 de Setembro de 1915:


"De resto, Orpheu não acabou. Orpheu não pode acabar. Na mitologia dos antigos, que o meu espírito radicalmente pagão se não cansa nunca de recordar, numa reminiscência constelada, há a história de um rio, de cujo nome apenas me entrelembro, que, a certa altura do seu curso, se sumia na areia. Aparentemente morto, ele, porém, mais adiante — milhas para além de onde se sumira — surgia outra vez à superfície, e continuava, com aquático escrúpulo, o seu leve caminho para o mar. Assim quero crer que seja — na pior das contingências — a revista sensacionista Orpheu."

Fernando Pessoa, Correspondência 1905-1922, Lisboa, Assírio & Alvim, 1999, p. 172-173.


Em carta para Fernando Pessoa, a 25 de Setembro de 1915, Mário de Sá-Carneiro confirmava a ideia do amigo sobre a imortalidade da revista: "Você tem mil razões: O Orfeu não acabou. De qualquer maneira, em qualquer 'tempo' há-de continuar. O que é preciso é termos 'vontade'."

Dead Combo Discography (2004-2014)



Tó Trips and Pedro Gonçalves are Dead Combo.

Official Website





The group was formed in 2003 by an invitation of Henrique Amaro from Antena 3 radio, to record the track “Paredes Ambience” included in the homage CD to the genius of the Portuguese guitar Carlos Paredes, “Movimentos Perpétuos – Música para Carlos Paredes”. They incarnate two characters that could have come from a comics book: a undertaker and a gangster.

Their five albums released so far have been critically acclaimed in Portugal and abroad, having had their first “Vol. 1” included in Charlie Gillet’s list of best world albums in 2005, “Lusitânia Playboys” awarded record of the decade and all of the albums awarded record of the year by several important publications in Portugal

Dead Combo was featured in the Lisbon episode of “No Reservations” by Anthony Bourdain. Their music was the soundtrack for the whole episode and a show was also shown.

The three first albums of the band reached the top 10 on the north-american iTunes charts for several weeks.

Recently Dead Combo headlined several major summer festivals in Portugal.

“A Bunch of Meninos”, the band’s latest album, reached number one in Portugal, and also on Spotify (Portugal) and iTunes (Portugal).

“Rumbero” and “Lisboa Mulata” were recently included in the motion picture “Focus” by  Glenn Ficarra and John Requa featuring Will Smith, Margot Robbie and Rodrigo Santoro.

DISCOGRAPHY


VOL. 1 – RELEASED 2004


VOL. 2 – QUANDO A ALMA NÃO É PEQUENA – RELEASED 2006


LUSITÂNIA PLAYBOYS – RELEASED 2009


LISBOA MULATA – RELEASED 2011


A BUNCH OF MENINOS – RELEASED 2014

Paula Rego, Secrets & Stories - 2017 - Nick Willing



Directed by Nick Willing

Released in 2017

Storyline: A unique insight into the life and work of celebrated painter Paula Rego directed by her son, film-maker Nick Willing. Notoriously private and guarded, Rego opens up for the first time, surprising her son with secrets and stories of her unique life, battling fascism, a misogynistic art world and manic depression.

Born in Portugal, a country which her father told her was no good for women, Rego nevertheless used her powerful pictures as a weapon against the dictatorship before settling in London, where she continued to target women's issues such as abortion rights. But above all, her paintings are a cryptic glimpse into an intimate world of personal tragedy, perverse fantasies and awkward truths.

Nick Willing combines a huge archive of home movies and family photographs with interviews spanning 60 years and in-depth studies of Rego at work in her studio. What emerges is a powerful personal portrait of an artist whose legacy will survive the years, graphically illustrated in pastel, charcoal and oil paint.








See also her son in law work (Ron Mueck)

Manifesto anti-Dantas e por extenso por José de Almada Negreiros poeta d'Orpheu futurista e tudo



O Manifesto Anti-Dantas e por extenso é um texto da autoria de José de Almada Negreiros, publicado em 1915 por ocasião da estreia da peça de teatro Soror Mariana Alcoforado de Júlio Dantas.

Em 1915 foi publicado o segundo número da Revista Orpheu, marco inicial do Modernismo em Portugal, onde participaram nomes como Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Santa-Rita Pintor e Armando Côrtes-Rodrigues. Todavia, a sua novidade, o seu arrojo, a sua ousadia tanto na produção literária como pictórica, causou escândalo junto da burguesia lisboeta conservadora. Entre os muitos opositores ao movimento estava o médico e escritor Júlio Dantas, cuja crítica aos vanguardistas foi feroz. Através deste manifesto, Almada reagia publicamente, utilizando Júlio Dantas como símbolo das posições mais retrógradas.


Este manifesto não teria sido possível sem Marinetti. Sem o clima de insurreição contra as belas-letras cultivadas pelas academias, naquele ambiente morno em que as imagens sediças têm um viço de esmalte e de pintura à pistola.Sempre esses cenáculos em que pontificam caducos literatos de graves ademanes senis e de frases brunidas, medidas pelo

diapasão dos clássicos que o tempo ressequiu, foram considerados os templos da Literatura e da Arte consagrada e definitiva.

Sempre também os que vieram ao mundo com algo para dizer de novo, reagiram contra esses colégios de eruditos e de artistas aposentados na glória, essa glória capitalizada em duas ou três obras de sofrível sucesso, elevadas pelo panegirico dos confrades do elogio mútuo a sensacionais obras primas de expressão mundial.

Mas escola nenhuma rompera tão desabridamente com as reverências do velho mundo das letras, refugara as glórias da tradição e da vida oficial, como esse Futurismo, que Marinetti projectara no mundo, com o ardor, a combatividade, a diabólica juventude dum libertário.

A Civilização material representada pelo industrialismo, a potência criadora do homem vista através das energias mecânicas, o dinamismo e a vertigem como expressão dum novo estado de alma trouxeram novos ritmos à epopeia através do verbo poético de Whitman, o grande poeta da democracia, e de Verhaeren, o cantor das grandes urbes tentaculares, em que a vida ganha uma expressão colectiva, como até aí só episòdicamente alcançara nos breves momentos das cruzadas ou das expedições militares.


Mas é o Futurismo que proclama a revolta do homem. E porque é muito mais um acto de rebelião e, portanto, um acto impossível de controlar racionalmente, do que um movimento literário ou estético que trás, por adição, ao património literário uma contribuição nova, no seu âmago estuam todas as contradições e germinam os grandes conflitos que pirotècnicamente deflagraram depois sobre o mundo, ensombrando de inquietação a face do nosso tempo.

O futuro militante fascista, ali apregoa o valor purificador e criador da guerra, o desdém da civilização pacífica e de todos os seus acentos femininos e cristãos. É a tuba sonora
da vertigem e da luta. A linguagem adquire um valor novo--lançada em combinações extravagantes e brutais, alheias à sintaxe e à lógica do discurso. São balas. São pedras. São gritos. Balas, pedras e gritos que aumentam de rumor na medida em que as
letras aumentam de tamanho.

O clima espiritual de Marinetti ninguém o traduziu melhor que Almada-Negreiros. Ele foi o melhor cartaz do modernismo em Portugal.

Sá-Carneiro era um esteta de ritmos prismáticos, em que a luz se decompunha em florescências decadentes e subtis. Era por assim dizer, uma bandeira heráldica, oirescente e escandalosa.

Fernando Pessoa toma para si o papel de mentor intelectual. Há sempre um sentido oculto nas suas criações literárias. Sempre lhe preside uma ideia. Sempre procura opor ao que está uma filosofia, uma mentalidade ou até uma nova humanidade.

Santa Rita figura de precursor, e como tal, é um impulso que se deixa de realizar em si para se realizar nos outros.

Almada é a trombeta do cortejo. Salta à frente, com este estridente manifesto literário, em que o escândalo rebenta por todas as linhas, salta à frente com teatralidade dos seus gestos, dos seus gritos e dos seus atentados ao gosto e aos hábitos do senhor-toda-a-gente, hábitos de trajar, de pensar, de fazer versos, de ser funcionário público e de ter descendência linfática.


Destapa a careca dos burgueses, ri-se da sua literatura sem noviade, sem imaginação, hipócrita e probremente sexual, do seu lirismo requentado, da sua política de labita, do seu
jornalismo sem agitação, da sua arte andrajosa e quase-litográfica, da sua moral caricata, amarrada estreitamente ao cadáver dum mundo que se afundava na cova, ruído de reumatismo.

É, em resumo, o gaiato sublime, que puxa a penca ao respeitável conselheirismo nacional e grita à plebe boquiaberta: _o Rei vai nu!_

Este manifesto, sublinha a revolta dos homens do século XX contra uma formação intelectual que não só não acompanhava as novas gerações nas suas inquietações como pretendia, ainda, continuar de costas para o Futuro, a impor, imperturbàvelmente, a _lei seca_ a um país sequioso de espírito novo.

É, por isso, um documento cujo valor ultrapassa o seu tempo. E pertence, por direito natural, a todas as gerações que vierem para a Vida com a sacrílega e humana ambição de Prometeu.


Almada Negreiros escreve o Manifesto Anti-Dantas reagindo à estreia, a 21/10/15 no Teatro Ginásio em Lisboa., da peça Sóror Mariana de Júlio Dantas. Integrando-se no grupo «daqueles que, usando dum legítimo direito e com plena convicção», patearam a peça de Dantas, uma «baboseira teatral» da autoria de um «homem cuja mediocridade inchada de egotismo o levou a comparecer em cena, ao chamamento de meia dúzia de claqueurs, ignorantes e ineptos» (Almada Negreiros e.a., A Lucta, 25/10/15), Almada terá redigido o manifesto, ou parte dele, logo após a representação, lendo-o no dia seguinte a um grupo de amigos. No entanto, o Anti-Dantas só será publicado meses mais tarde, em edição de autor, entre Junho e Julho de 1916.

Se o manifesto de Almada surge na consequência directa de um evento específico – o que explica sem dúvida a presença, num texto deste tipo, da longuíssima e caricatural descrição da estreia de Sóror Mariana – este constitui, fundamentalmente, uma reacção violenta contra todos os que criticaram o grupo de Orpheu – em suma, contra o conjunto da intelectualidade portuguesa, representado pela figura emblemática de Júlio Dantas. Pois se o autor da Ceia dos Cardeais não era dos piores representantes da mentalidade marasmada das nossas letras, não deixava porém de ser, pelo seu currículo multifacetado e pelo seu discurso eminentemente acaciano, o mais representativo dessa mentalidade. Poeta, dramaturgo, romancista, cronista, jornalista, historiador, tradutor, professor e director da Escola da Arte de Representar, médico, deputado, embaixador, senador, e ministro, Júlio Dantas escreve sobre tudo e a propósito de todos com uma superficialidade e um reaccionarismo apenas disfarçados por alguma graça e alguma elegância.


Mas para além de constituir o expoente máximo do establishment cultural português da época, Júlio Dantas assina ele próprio, no número de 19/4/15 da Ilustração Portuguesa, uma crónica sobre os poetas de Orpheu intitulada «Poetas Paranóicos». Através desta nota Dantas denuncia a excessiva publicidade feita à nova revista literária que, «tinha apenas de notável a extravagância e a incoerência de algumas, senão de todas as suas composições». Por um lado, o médico-escritor afirma que «loucos não são precisamente os poetas, mais ou menos extravagantes, que querem ser lidos, discutidos e comprados» e que «quem não tem juízo é quem os lê, quem os discute e quem os compra». Mas por outro lado, o título desta crónica refere-se manifestamente à tese de formatura em medicina de Júlio Dantas, Pintores e Poetas de Rilhafoles (1900), associando claramente os poetas de Orpheu à paranóia – que «rompe os muros dos manicómios e alastra, cá para fora, dando […] toda essa galeria de figuras de cera da literatura e da arte decadente» – e assimilando os seus poemas aos escritos do paranóico – «documentos pitorescos, variando com o conteúdo das ideias delirantes, gafos de neologismos e às vezes de arcaísmos, eriçados de expressões simbólicas, com abuso de capítulos, de maiúsculas, de itálicos», formulados numa linguagem «balofa, com períodos enormes e brilhos de brocado falso». Numa entrevista radiofónica concedida a 15/8/65 Almada referirá ainda, como estando na origem do seu manifesto, um inquérito organizado pela Capital acerca da suposta loucura dos poetas de Orpheu e dirigido a Júlio de Matos, Egas Moniz e Júlio Dantas – cuja resposta considera «indignante». Ora é provável que este inquérito, nunca localizado, tenha sido totalmente forjado pela personalidade teatral de Almada Negreiros de modo a reunir numa só peça vários alvos de acusação: o jornal A Capital, principal arauto das críticas a Orpheu, Júlio de Matos e Egas Moniz, pela entrevista concedida à Lucta a 11/4/15, e Júlio Dantas, pelo seu testemunho na Ideia Nacional, que ganha, assim, maior relevo.


O Manifesto Anti-Dantas representa também o culminar de uma animosidade antiga entre os modernistas e o autor d’A Severa. A 28/11/13, num texto sobre teatro publicado n’O Rebate, Mário de Sá-Carneiro refere-se ironicamente ao «genia[l] Sr. capitão-médico Dantas»; em Setembro de 1915 dedica-lhe a famosa quadra do poema Serradura, publicado por Almada no terceiro número de Sudoeste; sendo inúmeras as referências jocosas a Júlio Dantas presentes na sua correspondência com Fernando Pessoa: «o homem do Orpheu a assinar artigos na Ilustração ao lado do colega Dantas tem muito chiste não tem? Será descer – mas é com pilhéria» (Paris, 29/10/15); ou «viu a última Ilustração Portuguesa? […] vem […] lá uma página anunciando o número de Natal onde figuram os retratos dos colaboradores: Júlio Dantas, Augusto de Castro, etc., e... Mário de Sá-Carneiro, o homem do Orpheu! É fantástico! E podemos presumir que o nosso Dantas não deve achar a coisa muito bem...» (Paris, 12/12/15); e ainda, «pateada a Dantas publicamente – gente – do – Orpheu. Óptimo!» (Paris, 13/11/15). Quanto a Fernando Pessoa, encontramos já em 1913 pelo menos dois textos onde a figura de Júlio Dantas é parodiada. Em «Naufrágio de Bartolomeu», a propósito de Bartolomeu Marinheiro de Afonso Lopes Vieira, Pessoa escreve que «os homens do Portugal de amanhã», «educados na estupidez» e «levados ao anti-patriotismo», «terão por Shakespeare o Sr. Júlio Dantas, por Shelley o Sr. Lopes Vieira… e serão espanhóis» (Teatro: Revista de Crítica, 1/3/13). Num outro texto a propósito, nomeadamente, de Teatrália, publicação que apresenta colaboração dos professores da Escola da Arte de Representar, Fernando Pessoa refere-se ironicamente à revista, «iniciativa dos alunos da Escola da Arte de Representar» que não se «impon[do] como má […] tem claras pretensões a sê-lo», e ao «aluno» Júlio Dantas (Teatro: Revista de Crítica, 25/3/13). Já no âmbito da publicação de Orpheu, em 1915, Fernando Pessoa lamenta «a ignorância e incompetência dos nossos críticos, a incultura e a estupidez do nosso público, a indisciplina mental e o charlatanismo científico dos nossos pretensos homens de ciência», referindo «o Poetas e Pintores de Rilhafoles do Sr. Júlio Dantas» que «nem chega a constituir charlatanismo» (FP, Escritos sobre Génio e Loucura, p. 393).


O Manifesto Anti-Dantas e por extenso dirige-se explicitamente contra todos os Dantas de Portugal, contra um meio artístico e intelectual estéril e ultrapassado, incapaz de receber Orpheu senão com violência e escárnio. E assim, é enquanto «Poeta D’Orpheu / Futurista / E / Tudo» que Almada assina o seu texto, brandindo o estandarte futurista como mais uma provocação. Embora apresentado por um «Futurista / E / Tudo», o Anti-Dantas não assume os contornos nem de manifesto futurista, cujos princípios estruturais desrespeita, nem de manifesto do Futurismo, cujos ideais não proclama, adoptando no entanto elementos vários da poética futurista e aproximando-se formalmente da estética de vanguarda. Destinando-se à difusão de um programa determinado, os manifestos do Futurismo italiano usam os métodos da propaganda política, privilegiando uma linguagem persuasiva e sintética e assumindo um carácter essencialmente didáctico. O uso expressivo (plástico) da tipografia, a ausência de pontuação, ou o uso de onomatopeias – elementos característicos da poética futurista – são apresentados isoladamente e servem, geralmente, apenas como exemplo das teses defendidas. Ora o Anti-Dantas, para além de se apresentar totalmente redigido em caixas altas, apresenta uma página de rosto composta por tipografias várias cuja utilização não depende da esfera didáctica. O itálico, em «Futurista / E / Tudo», exprime graficamente o carácter jocoso e provocatório do futurismo de Almada, sendo usado, não no âmbito das suas habituais funções mas como signo puramente visual e portador de conotações novas. O aspecto gráfico do Anti-Dantas, em si, factor de provocação, não se destina a sublinhar o discurso propriamente dito do manifesto. A pequena mão negra que aponta , sinal tipográfico frequentemente usado na propaganda da época e que aparece seis vezes ao longo do texto, não mostra nem denuncia uma ideia chave, mas um ridículo «Pim !», servindo mais a derrisão que um propósito de compreensão. O mesmo se poderá dizer acerca das onomatopeias – «Basta Pum Basta»; «O Dantas […] Em Talento É Pim-Pam-Pum !» – que enfatizam o tom facecioso do texto. Ao adoptar alguns preceitos futuristas do ponto de vista da escrita, Almada reveste o Anti-Dantas dum vanguardismo provocador, defendendo, deste modo, a inovação literária de Orpheu contra a arte de «Todos Os Dantas».


Almada começa por atacar directamente Júlio Dantas, «Vergonha Da Intelectualidade Portuguesa», não só enquanto escritor – «O Dantas Saberá Gramática, Saberá Sintaxe, […] Saberá Tudo Menos Escrever Que É A Única Coisa Que Ele Faz !» – mas enquanto indivíduo – «O Dantas Nu É Horroroso», «O Dantas Cheira Mal Da Boca», etc. – imitando as popularíssimas nosografias da época, género de que o próprio Dantas se tornara especialista. Passa depois à crítica da primeira representação de Sóror Mariana, na origem do manifesto, fazendo pouco da peça em si mas também, indirectamente, de todos aqueles que, de perto ou de longe, contribuíram ao espectáculo. Sem nomear os alvos, o que seria desnecessário para qualquer leitor de 1916, Almada refere alguns grandes vultos do teatro português da época, nomeadamente, os actores Mário Duarte (futuro director da revista De Teatro), Mendonça de Carvalho e Maria Matos. Mas nisto não se «Resume A Literatura Portuguesa». Almada critica então abertamente Rui Chianca, Vasco de Mendonça Alves, Amílcar da Silva Ramada Curto, Urbano Rodrigues, André Brun, João Carlos de Melo Barreto, José Nunes da Mata, Faustino da Fonseca, Alberto Mário de Sousa Costa, todos eles, de uma maneira ou doutra, ligados ao meio teatral. Talvez porque para Almada o teatro seja uma arte onde «se reúnem todas as outras artes», «o escaparate de todas as artes». E é na verdade contra o estado de todas as artes e de toda a cultura portuguesa, que Almada Negreiros se revolta. Contra os jornalistas de «Todos Os Jornais», contra «Os Actores De Todos Os Teatros», contra «Todos Os Pintores Das Belas Artes E Todos Os Artistas De Portugal». Enquanto «Poeta D’Orpheu» insurge-se contra todos os que não souberam contribuir para o progresso da arte europeia, limitando-se a copiar modelos inúmeras vezes repetidos, e vendendo a sua arte aos aplausos de um público inepto ou de uma qualquer facção política. Almada posiciona-se contra «Todos Os Que São Políticos E Artistas» não deixando de aludir, com os «Menus Do Alfredo Guisado», ao afastamento deste colaborador de Orpheu, republicano convicto, em relação aos outros membros do grupo depois das intervenções de Raul Leal e Álvaro de Campos contra a figura de Afonso Costa, em Julho de 1915. A confusão entre arte e política em que Orpheu cairia pelas mãos de alguns jornais – sobretudo o República – é denunciada por Almada ao longo de todo o manifesto. Por um lado, ao citar nomes que, a par de Júlio Dantas, ocupavam paralelamente à actividade literária também cargos políticos de relevo. Por outro, criticando a consagração politizada de certos artistas – como o Dantas que «Ainda Apanha Uma Estátua De Prata Por Um Ourives Do Porto», alusão à mediática estátua de Afonso Costa mandada fazer em 1913 por um admirador – e de determinadas obras, como o Aljubarrota de Rui Chianca cuja estreia, a 1/12/12, suscitou por parte de «todas as classes do povo português», «ao verem ressurgidas e soberbas as figuras do nosso passado», «aqueles brados que solicitaram a Portuguesa, o acenar daqueles lenços, as aclamações que envolviam o presidente, figura simbólica e austera duma República digna» (A Capital, 13/12/12).


McNAB, Gregory, «Sobre duas intervenções de Almada Negreiros», in: Colóquio letras, n.° 35, Janeiro de 1977, pp. 103-110; SARAIVA, Arnaldo, «Pessoa “admirador” de Dantas? Dantas “admirador” de Pessoa?», in: Persona, n.º 4, Janeiro de 1981, p. 19; ALMADA NEGREIROS, José de, Manifestos e Conferências, Lisboa, Assírio & Alvim, 2006.



A EDIÇÃO PRINCEPS DESTE MANIFESTO, COM CAPA CINZENTA, EM PAPEL DE EMBALAGEM E TEXTO DISTRIBUÍDO POR OITO PÁGINAS SEM NUMERAÇÃO, FOI COMPOSTA COM ESMERO, EM VERSALETES, NA MANCHA DE 197x125, E ILUSTRADA ESTURDIAMENTE POR SEIS MÃOS NEGRAS, SEMEADAS NO TEXTO SEMPRE QUE SEU AUTOR PROCLAMAVA A NECESSIDADE DE MATAR O DANTAS. O OPÚSCULO CUSTAVA 100 REIS E TORNOU-SE DIFICÍLIMO DE OBTER LOGO APÓS SEU APARECIMENTO EM PÚBLICO, QUE JOÃO GASPAR SIMÕES SITUA EM ABRIL DE 1916, NOS 21 ANOS DO POETA, CORRENDO HOJE AINDA QUE A EDIÇÃO FORA QUASE TOTALMENTE ADQUIRIDA, (OQUE EXPLICA SEU PREMATURO DESAPARECIMENTO), PELO PRÓPRIO ESCRITOR EM QUEM ALMADA-NEGREIROS SIMBOLISAVA A LITERATURA DE BOM TOM, POSTIÇA E CHÉCHÉ, A LITERATURA COM CREDENCIAIS E ATESTADO DE BOM COMPORTAMENTO DO ASSISTENTE ECLESIÁSTICO, DA ACADEMIA DAS CIÊNCIAS E DE OUTROS GRÉMIOS IGUALMENTE CONSPÍCUOS--LITERATURAESSA QUE IGNORAVA O VERDADEIRO DRAMA DO HOMEM, E SUA FOME MATERIAL E ESPIRITUAL.


DESTA OBRA FOI DEPOSITÁRIA A DESAPARECIDA LIVRARIA MONTEIRO & C.^A, ENTÃO INSTALADA NA RUA DO OURO, 190-192, DA CAPITAL PORTUGUESA, E QUE FOI O PONTO DE PARTIDA DE QUASE TODAS AS MANIFESTAÇÕES MODERNISTAS DESSE CURIOSO PERÍODO DE DEMOLIÇÃO E RENOVAÇÃO LITERÁRIA E ESTÉTICA--PROJECÇÃO LUSITANA DA RESSACA FUTURISTA QUE PERTURBAVA A EUROPA DESDE QUE O NOVO SÉCULO DESPONTARA.

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